Quem de nós?

Abro os olhos. Escuro é o ar que inspiro. No entorno do meu corpo percebo as sombras dos transeuntes que apressados passaram por mim. Arrepio. Nos olhos deles todas as defesas do não-amar. Em suas ações a apática falta de atitude dos que se escondem. Medo. Amar deveria ser um fôlego. Deveria ser um dia azul de 26º. Deveria ser barulho de água e pés na terra. Amar virou tarefa hercúlea. Requer coragem, como que se amar fosse correr riscos de morte. Eu penso que coragem deveria ser necessário apenas para atos heroicos. Transpiro. Recobro a consciência de dentro dos escombros das ruínas do meu peito. Todo amor que tinha comigo ainda está aqui, amassado dentro do meu peito pesado. Quase tudo o que sonhei foi devastado pelos ventos da ilusão que um dia tive. Olho pra cima e vejo a mim mesmo, de pé, olhando aquele outro eu que tem o peito amassado pelo peso frustrado da vida. Ele me vê de cima. Nos seus olhos a paz dos que ainda tem alguma fé. Nos meus olhos todas as dúvidas do mundo. Há algum tipo de certeza serena em seu olhar que me acalma mas que eu ainda não decifrei. Não há palavra audível entre nós nesse momento. Apenas o olhar que me confunde e pacifica, me completa e questiona. Quem de nós dois vai salvar o outro? Quem de nós vai erguer a mão ao outro? Quem nos libertará de nós mesmos? Quem trará o sol ou acenderá a luz do fim do túnel? Parece mesmo que amar nos dias de hoje só é possível aos heróis.


Featured Posts
Posts em breve
Fique ligado...
Recent Posts
Archive
Search By Tags
Nenhum tag.
Follow Us
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square